Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Um do Dez do Onze

Pela quinta vez no aeroporto, estou finalmente aqui para o que andei a desejar sempre que cá estive. Espero-te.
O nervosismo ao longo do dia, por te saber no alto dos céus, já não me permitiu concentrar-me em algo mais para além da tua chegada. A ansiedade cresce e procuro comportar-me, sem grande entusiasmo para não me denunciar, junto de quem mais te estima. O avião vem com atraso, procuramos entreter-nos com o pastel de nata e a conversa simples, mas os corações estão longe. A mãe pulula entre o painel que a avisou que falta pouco para te ver e o lugar onde te esperamos vislumbrar logo que cruzes a porta.
Finalmente estás em terra, diz-nos o painel. E a mãe sorri de alívio por, enfim, tudo ter corrido bem. Em silêncio, fixamo-nos na porta por onde surgirás. Por cada pessoa que surge, descontraidamente, o coração cresce mais um pouco. A ansiedade sobe, por cada nova cara que ainda não é a tua. Os minutos passam e começamos a acreditar que todo o teu avião já se esvaziou à nossa frente, só faltas tu. E cada novo minuto recorda que não é bem assim.
Vejo finalmente o teu grupo. Vejo-os a todos e tu escondes-te atrás das suas malas e costas largas. Quero ver-te primeiro. Estico todo o corpo para que te encontre mais rapidamente e, por fim, surges. O coração, esse, descansa, por fim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vinte e Nove do Um do Onze

Entro na sala e sinto o cheiro. É, efectivamente, uma festa de família. A terceira idade reina na divisão, sentada ao longo de todas as paredes, de mãos apoiadas sobre as saias, sorrindo cordialmente aos convidados que não conhece mas aceita. Fala-se das crianças já tão crescidas, do que faz um e outro, do tempo que passou desde a última vez, de promessas de novos encontros. A casa torna-se pouca para tanta gente, que se aperta para passar entre as umbreiras das portas. Vem muita gente celebrar, afinal, não é todos os dias que se celebram oito décadas. Mesmo que a aniversariante insista que são apenas dezoito, com a alegria que a muitos invejaria. E, no fundo, é sempre bom sentir que a família se mantém cá, ao longo de todos estes anos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Vinte e Um do Um do Onze

Do lado de cá, o médico pai, no seu trabalho, recebe o telefonema de lá, da médica mãe, em casa com a criança. "Diz, fofinha." E a médica mãe lá conta que a criança acordou com umas manchas no corpo. Mas estes pais são diferentes, são médicos, e a linguagem, apesar do carinho humano de sempre, tem algumas particularidades. Pergunta-se inicialmente pela febre, pelo mal estar, até que se entra no outro universo de preocupações. "Mas tem alterações hematológicas?". E, para que não restem dúvidas, o médico pai pede para esclarecer melhor. "São máculas ou pápulas?" Porque o amor é humano, mas a bata não sai com facilidade do corpo.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Dezassete do Um do Onze

Não foi um episódio, nem sequer dois. Foi constante em qualquer consulta com os dois presentes, pais e filhos. Especificamente, mães e filhos adolescentes. A adolescência impõe a pose dominante, o desafio protegido pela defesa apertada e a relativa descontracção perante os problemas de saúde. A mãe é, obviamente, galinha e quer exames para os pintainhos, só para saber que está tudo bem. E a mãe galinha responde às questões que o médico coloca ao filho, e diz que ele nunca diz as coisas todas, que fuma e que não pára quieto e nem sabe como ainda não lhe deu qualquer coisinha. Ah, e come muitos doces! É então que vem, invariavelmente, o rebolar dos olhos que termina com o múrmurio "oh, mãe..." e o olhar discreto de quem pede desculpa pelo embaraço da ansiedade materna.