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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cinco para Doze

#5. A Feira

No isolamento exigido, há algo que me anima. Na cidade que me viu crescer, a feira de Verão repete-se impreterivelmente nas três semanas mais animadas da estação. Com ela sei que traz as farturas e os churros, o Dragão com as suas duas únicas curvas apertadas, o camião-restaurante, a peixeirada e as ordinarices nas bancas dos brindes, as caras conhecidas e os concertos que satisfazem o requinte musical da juventude alternativa.
E este ano trouxe-me caras amigas. Recebi, com o suposto intuito de mostrar a minha feira (como carinhosamente a nomeio), gente para um abraço, para um jantar por lá, para uma voltinha nas diversões, para uns concertos em conjunto. E, afinal de contas, para que serve uma feira senão para nos tirar da solidão e isolamento dos dias quentes? 

domingo, 3 de abril de 2011

Um do Quatro do Onze

Por vezes, esqueço-me. O tempo passou e julgo que já não terá o mesmo efeito. Mas foi o nome que quis recordar nos enormes headphones, que tão pouco uso lhes dou. E, distraída com outras funções enquanto a música inicia, nem me apercebi do burburinho que se gerou entre os dois auriculares. Reconheço ainda cada momento destas canções. Sei-lhe a voz e a guitarra nos tempos certos, as revoltas e as carícias de cada canção e sei exactamente como o meu corpo quer reagir a cada uma delas. Porque sempre assim foi, porque criei essas reacções ao longo das várias audições naquele tempo que, julgava, já passou.
E é assim que se tem de recordar, isolada do resto da casa pelos enormes headphones, com a volume relativamente elevado e os músculos livres para reagirem criativamente ao som. Como um bom remédio para uma maleita que se arrasta.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Trinta do Três do Onze

No fundo, quis regressar um pouco àqueles tempos de liceu. Sobraram-me muitas memórias, mais do que aquelas que os amigos da época conseguem recordar em conjunto comigo, e estes momentos foram algumas delas. As guitarras e os pedais, as covers das bandas de sempre e o grupo de amigos que se junta para pular um pouco connosco. A nossa festa. Desta vez, a vossa, à qual não quis faltar, já que o convite tinha sido feito.
Estou um pouco mais leve e permito-me um pouco de diversão. Quis regressar ao pequeno palco. Quis tocar de novo. Mas hoje o momento não era esse, era a vossa música, a vossa alegria, as vossas letras, vozes e guitarras, a vossa canção original e a vossa vontade de mais. E, claro, a esfrega final da guitarra no suporte do microfone, para que não se esqueça o estilo de música que se pretende viver ali.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Vinte e Oito do Um do Onze

Há algum tempo que não me sentava entre estas pessoas. Avisaram-me logo: se me perguntassem, o meu casaco de vison estava a limpar. Sim, porque estranhariam no meio de tanta pele, um simples casaco preto e uns sapatos despreocupados. A burguesia lisboeta concentra os seus cabelos arranjados na sala que se prepara para ouvir Schubert, às mãos de uma maestrina. Não passam, portanto, despercebidas as rastas de um jovem que se sentou na plateia. Mas agora é hora do silêncio e de atenção para o palco.
É sempre curioso ver uma mulher a tomar o papel geralmente conduzido por um homem. O seu cabelo longo e brilhante dança com os seus passos largos e pequenos pulos enquanto coordena a orquestra. O entusiasmo transmite-se e o espectáculo não é apenas auditivo. Aquela elegância nas ordens ao grupo grande impõe respeito e admiração.
Saio satisfeita. Valeu bem a pena regressar ao clássico desta forma.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Doze do Doze do Dez

É bom regressar cá. Há alguns anos, quebrei com tudo o que tinha para arrumar o furacão que tomara conta de mim. Adiei tudo o resto, em risco de me esquecer dessas porções de mim. Regressei hoje a uma delas.
Recordo a angústia e a desordem desses dias. Precisava dessa fuga e foi lá que repousei. A liberdade de expressão, as roupas largas e as conversas intimas acarinhavam-me e ganhei entusiasmo. Aprendi tanto, mudei de ares e cresci em direcções diversas. Ganhei raízes mais fundas e torcidas, com nós e força, mas, a certa altura, foi preciso parar. Penetrara demasiado fundo e a minha carne não tolerava tanta lama e humidade. Voltei à tona, para respirar fundo, e mergulhei para um lugar diferente, estéril e conciso. E veio o furacão.
Mas faz parte de mim. Ainda me encosto nas camisas largas, nos espaços ocupados e na arte subterrânea. E é reconfortante cá voltar, de braço dado com o furacão domesticado, sentada num matadouro, para ouvir só aquela voz naquela guitarra, sob o foco de luz do projector improvisado. Estamos perto de casa, disseram. É bem verdade.

domingo, 28 de novembro de 2010

Vinte e Sete do Onze do Dez

Ao descer as escadas, encontro-o. O rapaz, curvado sobre a mesa de esplanada do centro comercial, escrevinha sem parar no seu caderno. Não sabe que ali estou, nem eu, nem mais ninguém, porque se isolou na sua música, contida nos largos phones que ostenta por entre o cabelo longo ondulado. E não abranda no ritmo da escrita livre. Observo-lhe o caderno e as linhas incompletas, como, talvez, se tratasse de um poema. Ou da letra da própria canção que ouve, para desilusão da minha curiosidade alheia. Porque prefiro os poetas, os artistas, os originais que se encontram nos sítios mais inóspitos como um centro comercial verde em dia de jogo perigoso. E assistir à criação de algo novo, mesmo que as palavras sejam frágeis e inconsequentes, é algo único.

domingo, 21 de novembro de 2010

Vinte do Onze do Dez

Recordações em formato digital. Uma limpeza ao disco, que se exige assim que o computador ameaça não aguentar a exigência do trabalho, é o motivo perfeito para mergulhar em memórias empoeiradas. Não que estejam assim tão distantes, mas as prioridades são outras.
Regresso à música de outros países, de amizades criadas noutra língua que não a própria. Recordo o que aprendi e surpreendo-me por manter o espanto e o fascínio por certas melodias. Aprendi muito e é bom recordá-lo. Ainda me irrequieto. E sorrio, sempre.
Ficam as saudades de ter disponibilidade para me perder nestas descobertas. Fica o peso no peito por adiar indefinidamente conversas com quem me deu tanto de novo, com quem quero manter a partilha. Mas fica, essencialmente, a alegria de conhecer tudo isto.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Nove do Onze do Dez

Ao computador, adormecida no teclar rotineiro, o pé direito reconhece aquele início. Rapidamente, o início torna-se música concreta e o reconhecimento sobe pelo membro acima, propaga-se para o outro e não tarda ao movimento sincronizado apegar-se ao ritmo do rádio. Que saudades deste som. O calcanhar marca o passo e aproxima-se a guitarra que tanta vez soou, vezes e vezes sem conta, num quarto vazio para a expressão livre do corpo. As sobrancelhas não sobrevivem ao ataque acústico e contorcem-se, juntamente com os lábios que ensaiam em silêncio o solo que se segue. Ai, as mãos, últimas resistentes, em trabalho no teclado inerte, cedem por fim. O batuque pessoal sobre a mesa impõe-se. Porque esta música é viva e há que a viver. Porque é por estes segundos de êxtase que ansiava. O corpo quer vivê-lo, ali, naquela cadeira, em frente ao ecrã!
"Doutora, desculpe... Sabe onde foi a Dra. Rita?"
E assim se acorda. Juízo, isto é uma enfermaria, há aqui senhores doutores a trabalhar, a salvar vidas. Há gente séria que faz perguntas a gente que espera ser séria. É importante guardar para mais logo este momentos solitários. Vá. Ao trabalho. À seriedade. Juízo, sim.
Ai, mas aquela guitarra...!