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sábado, 31 de dezembro de 2011

Três para Doze

#3. Torres

A exaustão permanecia e o desespero ameaçava deitar tudo a perder. Se não fosse o refúgio, não teria conseguido.
O estudo ganhou novo fôlego por lá. Os livros mantêm-se, mas o lugar muda e tudo parece estar a começar. Há uma nova frescura, uma novidade que engana o espírito cansado e redobra a resistência.
Levanto a cabeça para abrir a visão. O campo longo, o silêncio na rua solitária e a ruiva que observa a janela elegantemente sentada sobre o banco. O incenso e as refeições coloridas. O baloiço, a criança e o sofá ao final da noite. E uma gratidão imensa por quem aqui me recebe e me salva.

domingo, 25 de setembro de 2011

Vinte e Três do Nove do Onze

Não o quero dizer, mas foi aquele momento. Foi quando me disse que me tinha descoberto. Desvio o olhar e procuro não pensar no assunto. É tudo muito pesado, tudo demasiado angustiante para conseguir lidar agora. Engulo em seco, repetidamente, para que não me saia pela boca, pelos olhos, pelo sobrolho franzido sobre a perdição do olhar. Não quero pensar mais para não me recordar do facto de não saber como seguir caminho. Há urgência em seguir de corpo erguido e hoje ainda não o tenho. Respiro fundo, engulo novamente e tento adormecer. Hoje será difícil.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Vinte e Nove do Três do Onze

Há que começar de novo. E começa-se pelo início, exactamente por aquele início de dia, aquele despertar lento para a consciência das horas que se seguem. Ali, quando o sonho cessa e o baque do real se impõe. Há que acordar, tirar o peso dos pés da cama e segui-los por aí, até ao horário que cumprimos e às responsabilidades a que nos submetemos. É isso, o levantar da cama, o que nos abate.
E tem sido custoso. Não que me faltem muitas horas de sono ou descanso, não é o corpo que se atrasa. É aquele peso que a alma impõe, é a força com que nos empurra de volta ao sono que já não voltará tão cedo, é o desânimo e a inexistência de um motivo feliz para começar um novo dia, que de novo aparentemente pouco tem.
E hoje foi diferente. Hoje, apesar do nervosismo e ansiedade que se impunha, a alma não me quis esconder de novo nos lençóis pesados, não me implorou que o tempo não corresse mais e nos deixasse sós. Hoje sorriu-me, abriu vagarosamente os cortinados para a luz entrar e disse que seria um dia bom. Hoje havia algo novo, hoje estaria algo realmente meu nas horas das tarefas diárias. Hoje seria um pouco mais de mim e menos dos outros. Talvez tenha sido isso.
Fica-me na memória aquele instante, tão díspar de todos os outros, que se repetem há tanto tempo, que me recordou daquilo que realmente procuro e que, confirma-se, me fará tão bem.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Vinte e Três do Um do Onze

É bom regressar aos bons tempos. Volto à escola onde aprendi a ler para, agora já maior, exercer o direito de voto. Desta vez não voltei à sala onde concorria com os meus colegas para ver quem terminava primeiro os testes, mas, de qualquer forma, é um sentimento muito reconfortante rever aquelas portas, aqueles corredores, as janelas e os quadros.
E, para completar o reconforto, encontro uma das professoras mais queridas da minha adolescência. Sorri com a mesma alegria que sinto em mim pelo reencontro e trocamos algumas palavras. Pergunta-me pelo curso, como tem de ser, mas pergunta mais. Como vai a escrita? Pergunta por mim, por quem sou, por quem tento ser. E eu agradeço a lembrança, agradeço o incentivo pelas palavras e a amizade que se mantém e se manterá. É bom ser recordada. É bom manter a casa de portas abertas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dois do Um do Onze

Esperei sessenta e nove horas para te ter ali comigo, de olhos pertos dos meus, trepando por cima do aro dos teus óculos, que insistem em magoar o meu nariz quando te procuro um beijo. Ali, a sós, entre as palavras que se contiveram durante essas sessenta e nove horas. Ali, onde ninguém vê o mimo que guardei para ti. Ali, finalmente, entre os compromissos, os sonhos e os elogios para o ano que começa. Ali, nas memórias dos dias bons e nas promessas dos dias melhores. Ali, contigo. Ali, connosco.
Agora sim, posso começar.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Catorze do Doze do Dez

É este o meu Natal. É abrir a porta e ver-vos, tantas, de roda de uma mesa que preparamos com carinho, coberta de doces e chás e leite e bolos caseiros. Todas em conversas alegres, no quente do quarto, sob uma áurea rubra com que esta época festiva é sempre recebida. Desta vez mato efectivamente saudades. Hoje há tempo, há alegria, há boas novas e há futuro próximo. E ver-nos neste conforto amigo é uma das melhores prendas que poderia receber.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Treze do Doze do Dez

Passou mês e meio desde que pousei o saco de papel junto à secretária, depois da festa. Todos os dias me sentei ao seu lado, de costas curvadas e olhos perdidos no ecrã, demasiado inerte para cumprir os requisitos da mente. Porque o conteúdo do saco de papel era conhecido, desejado, mas a inércia impedia a concretização. Hoje foi diferente.
Sem custo, removi o peso da cadeira onde sempre me afundo, mergulhei no saco, que mantém as flores de papel coloridas, e fui preparar o chá de frutas. Trouxe-o na chávena maior do espólio familiar e partilhei-o com os cookies, que se mantiveram deliciosos durante todo este tempo de espera. E regressei à cadeira e ao ecrã do vício. Desta vez, acompanhada por cada uma das pessoas que, naquele dia, me ofereceram este lanche.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vinte e Quatro do Onze do Dez

Torna-se demasiado incómodo assim que se torna físico. Acorda-me de noite, enrolado na boca do estômago, sem forma de se libertar. E eu não adormeço tão depressa. E não há posição de alivio. Dói e faz mossa. Há algo de estranho em mim e não o consigo resolver. Não quero acordar para isto.
E mesmo que tenha adormecido de novo, um bom bocado depois de uns socos na dor para a disfarçar, acordo de novo com o mesmo cansaço da mente, o mesmo incómodo nas horas que se seguem porque o sonho fez questão de mo lembrar, repetidamente, durante a noite.
Bastar-me-iam as horas reais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vinte e Dois do Onze do Dez

Não é fútil. Ninguém aqui veio apenas para comer ou pôr a conversa ligeira em dia. Seria fútil se fosse mais um jantar fora, onde na mesa longa se resume a discussão à circunferência mais próxima, seguida de noitada, álcool a mais e uma noite exactamente igual às outras. Mas este aniversário é diferente. Estes pratos não são fúteis. Não houve uma encomenda feita à pressa para resolver a situação, houve uma tarde inteira de volta do fogão para nos preparares tudo isto. E eu sei que, enquanto se prepara tanto regalo assim, não se esquece de quem o vai apreciar, daí a algumas horas. Porque há mais nas palavras do convite do que uma simples combinação de encontro. Tu importas, é o que leio. E isso toca e é relevante. Eu venho, mesmo que chova, que o cansaço não se resolva, que a manhã custe a começar depois da viagem de hoje, mas venho. Porque, sabes, tu também importas. Porque é mais do que um aniversário.
E sim, celebramos mais do que a tua existência. Celebramos a nossa. Não preciso de o dizer alto. Porque há sempre um momento em que olho em silêncio e vejo-os a todos, especiais, relevantes, convictos de uma amizade séria que os traz ali, que os leva ao teu abraço, que os leva às palavras amigas. Porque ali estou a partilhar tudo isto contigo. E não há que ter medo da alegria. A existência, a partilha, a vivência, é alegria.
Queria só dizer-to.

Vinte e Um do Onze do Dez

Amanhã é Segunda.
O cansaço dos dias dá de si. É preciso parar, é preciso encolhermo-nos, escondermo-nos em nós, hibernar num tempo parado, o que for preciso para restaurar a paciência e a motivação. As horas sucedem-se, sempre à mesma velocidade compassada, e sei a que distância me encontro do que aí vem. O dia de amanhã. O próximo mês. O próximo ano. A angústia da incerteza de ser capaz. Servirá?
Hoje quero uma noite longa. E acordar longe deste tempo. Por uns dias. É preciso.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dezanove do Onze do Dez

O dia pede um cobertor, um chocolate quente e um bom filme no conforto de casa. Chove. Em Lisboa, o Mundo concentra-se e condiciona a mobilidade de quem não governa. Cede-se o dia para permanecer no domicilio, sem confusões.
Mas ali estamos.
Há chuva, há frio, há distância, há espera, há viagens, e há até, possivelmente, algum aborrecimento no caminho. Mas veio. E ali estamos, em conversas longas, em desabafos precisos, junto ao chá quente e à tosta gigante, no café esvaziado pelo dia feio, ao largo da foz que cheira a mar. Tenho ali a companhia que me falta nesta cidade, de onde fogem os amigos que crescem. E, hoje, fez essa viagem em sentido contrário para aquela partilha de horas da tarde escurecida. E esse gesto não me é indiferente.
Gente amiga. Amiga.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dezassete do Onze do Dez

Dói. A impotência pesa e a distância amplifica. Acompanho-te neste cubículo, pelas palavras que te envio e que não cavam tão fundo assim. Quero ser suficiente, mas não o sou. É algo mais profundo, algo que não consigo alcançar, que não consigo cortar-lhe a raiz e queimá-lo, longe de ti para que nem o fumo te recorde do que foi. Tu conhece-lo bem, sabes como te consome e dizes-mo porque voltou e não quer sair. E eu oiço, impotente, com as mãos cravadas nessa sombra, para que a afaste de ti. Não a consigo agarrar, não lhe conheço as pontas soltas. E dói. Porque te dói. E não o sei estancar.

sábado, 13 de novembro de 2010

Treze do Onze do Dez

Hoje fico cá dentro. Hoje não conto. Hoje fica-vos o ruído de fora e a impossibilidade da fuga como único cenário. O resto, é cá de dentro. O resto criou-se neste contexto, cresceu depressa e manteve-se preso em cada gesto durante algumas horas. E é isto.
É a angústia de sempre por ser sempre assim. É a revolta que não se revoluciona porque é sempre assim. Sempre será. O tempo já passou e resta conter a revolta. É a fragilidade perante um tom, mesmo que as palavras não sejam suficientemente maliciosas. É a incompreensão. E é a compreensão, clara como não a querem mostrar, e a dor que traz com ela.
A Angústia do sempre para sempre.

domingo, 7 de novembro de 2010

Sete do Onze do Dez

O peito afundara na noite anterior e o sonho levara-me de volta. Quis acordar longe e em tempo incerto. Mas acordei ali, a teu lado. Já desperta, observavas-me em silêncio, atenta, imóvel, dedicada. Surpreendi-me, não esperava os teus olhos grandes em ronda por mim, o teu sono geralmente prolonga-se um pouco mais, mas não tardei a serenar. Eras tu. Cuidavas. Conhecias o peso cá de dentro e aguardavas por notícias do fundo. Estou melhor, sim. Afinal não quero acordar longe. Estou protegida aqui. Contigo.