quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vinte e Oito do Nove do Onze

É mentira. Não me faltam homens na minha vida. Lá porque este curso maioritariamente feminino reduz as possibilidades de contacto com alguma testosterona não implica que restrinja os meus contactos sociais ao meu género. Reservo bons amigos.
Como o que me acompanhou nas ultimas burocracias para nos tornarmos médicos a sério. Foi a companhia ideal para encerrar este ciclo, construído com o seu companheirismo e amizade, algo que conservarei destes dias de faculdade.
Ou como o colega dos tempos de infância, que se recorda da minha incrível capacidade de rimar em tão tenra idade. Crescemos, arranjamos emprego, conduzimos um carro, mas as conversas permanecem.
Ou progridem. Juntam-se os amigos de secundário, recordam-se outros tempos, proclamam-se as novidades e brinda-se ao futuro e à vida. E tudo isto num dia cheio de testosterona amigável.

Vinte e Sete do Nove do Onze

Hoje despeço-me. Vou buscar os últimos papéis oficiais da faculdade para que, oficialmente, desligue qualquer obrigação da mesma. Acabou, já ali não pertenço. Porém, ninguém o sabe. Vejo caras conhecidas de outros anos e, essencialmente, caras novas. Vejo as problemáticas de início de ano, as alegria de rever pessoas, as esperanças de quem acaba de chegar. Vejo que a reprografia continua a roubar discretamente. À saída, duas raparigas perguntam-me onde fica a biblioteca. É simples, é só subir até ao sexto andar. Quem diria, saio da faculdade com um sorriso. Passo o testemunho a quem só hoje descobre onde fica a biblioteca. Deixo esses anos para trás e desejo o melhor para quem chega.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vinte e Seis do Nove do Onze

Não me incomodo com atrasos. Duas horas à espera por uma consulta são toleráveis quando há oportunidade de observar quem chega e parte.
Como a senhora que bufa. Bastou chegar para perceber que não era família de grande paciência. Já de sobrolho desconfiado e gestos esquivos, chega com a sua mãe e já antecipa a demora. Sentada a meu lado, junto à sua mãe, que aguarda um pouco mais conformada, espera atentamente pela chamada no altifalante. Por cada nome que soa e que não corresponde à sua expectativa, bufa. A quantidade e intensidade de ar expirado vai crescendo gradualmente de forma que até eu já desejo que o tal nome seja pronunciado pois começo a recear a minha segurança. Eventualmente, o nome chega. Acabaram-se os bufos, mas eu, que aqui me sentei ainda antes das senhoras terem chegado, permaneço no meu lugar, aguardando pacientemente pela minha vez no altifalante, sem uma única inspiração profunda.
Quase duas horas depois, preparo-me para me exaltar quando, por fim, chega a minha vez. Sou paciente.

domingo, 25 de setembro de 2011

Vinte e Quatro do Nove do Onze

Bastou acordar. Vieste no sonho desta noite e sorrias-me, isso basta. Quis manter a emoção e telefonei. A tua voz mantinha o sorriso e as palavras prometiam conforto. Vou ler o que me escreveste, sim. Fui logo, tu sabes que não consigo esperar muito por saber de ti. E vieste embrulhada na tua carta, com o carinho de sempre, mimando-me pelos longos parágrafos que me dedicaste. Disseste o que precisava de ouvir, sabes bem como fazê-lo. Eu consigo, dizes-me, em letras capitais. E, hoje, meu bem, começo a acreditar em ti. E resultou, sabes?
Hoje consegui. Amanhã conseguirei de novo.

Vinte e Três do Nove do Onze

Não o quero dizer, mas foi aquele momento. Foi quando me disse que me tinha descoberto. Desvio o olhar e procuro não pensar no assunto. É tudo muito pesado, tudo demasiado angustiante para conseguir lidar agora. Engulo em seco, repetidamente, para que não me saia pela boca, pelos olhos, pelo sobrolho franzido sobre a perdição do olhar. Não quero pensar mais para não me recordar do facto de não saber como seguir caminho. Há urgência em seguir de corpo erguido e hoje ainda não o tenho. Respiro fundo, engulo novamente e tento adormecer. Hoje será difícil.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vinte e Dois do Nove do Onze

Dois meses.

Desprevenida, regredi novamente. Regressei à insegurança e timidez de outros tempos. Por momentos, perdi tudo o que ganhara até hoje e voltei a ficar só no ridículo de não saber o que fazer. Estática, procuro esconder o desconforto em gestos aparentemente inocentes. Finjo ler enquanto a cabeça rodopia e nada vê e nem as mãos se sabem comportar, deixando cair os papéis aos pés de alguém a quem queria ser invisível. Invisível, como, nos outros tempos, tanto receava não ser aos olhos dos despreocupados no caminho. A estranheza estranha-se e o meu incómodo ressalta aos olhos de quem não quero. Assim como o embaraço por me sentir descoberta. E o tempo passa tão devagar quando me sinto atentamente observada. Não o sou, possivelmente, mas a vergonha prevalece e impõe as suas ideias. Não quero esta vergonha de volta a mim, já não sei lidar com ela.
O momento terminou, eventualmente. Regresso ao ambiente que reconheço e sou de novo a pessoa que procurei criar ao longo destes últimos anos. Não sei o que se passou, assusta-me ter acontecido e conto que não se repita. Não consigo.
Estou cansada.

domingo, 3 de abril de 2011

Um do Quatro do Onze

Por vezes, esqueço-me. O tempo passou e julgo que já não terá o mesmo efeito. Mas foi o nome que quis recordar nos enormes headphones, que tão pouco uso lhes dou. E, distraída com outras funções enquanto a música inicia, nem me apercebi do burburinho que se gerou entre os dois auriculares. Reconheço ainda cada momento destas canções. Sei-lhe a voz e a guitarra nos tempos certos, as revoltas e as carícias de cada canção e sei exactamente como o meu corpo quer reagir a cada uma delas. Porque sempre assim foi, porque criei essas reacções ao longo das várias audições naquele tempo que, julgava, já passou.
E é assim que se tem de recordar, isolada do resto da casa pelos enormes headphones, com a volume relativamente elevado e os músculos livres para reagirem criativamente ao som. Como um bom remédio para uma maleita que se arrasta.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Trinta do Três do Onze

No fundo, quis regressar um pouco àqueles tempos de liceu. Sobraram-me muitas memórias, mais do que aquelas que os amigos da época conseguem recordar em conjunto comigo, e estes momentos foram algumas delas. As guitarras e os pedais, as covers das bandas de sempre e o grupo de amigos que se junta para pular um pouco connosco. A nossa festa. Desta vez, a vossa, à qual não quis faltar, já que o convite tinha sido feito.
Estou um pouco mais leve e permito-me um pouco de diversão. Quis regressar ao pequeno palco. Quis tocar de novo. Mas hoje o momento não era esse, era a vossa música, a vossa alegria, as vossas letras, vozes e guitarras, a vossa canção original e a vossa vontade de mais. E, claro, a esfrega final da guitarra no suporte do microfone, para que não se esqueça o estilo de música que se pretende viver ali.

Vinte e Nove do Três do Onze

Há que começar de novo. E começa-se pelo início, exactamente por aquele início de dia, aquele despertar lento para a consciência das horas que se seguem. Ali, quando o sonho cessa e o baque do real se impõe. Há que acordar, tirar o peso dos pés da cama e segui-los por aí, até ao horário que cumprimos e às responsabilidades a que nos submetemos. É isso, o levantar da cama, o que nos abate.
E tem sido custoso. Não que me faltem muitas horas de sono ou descanso, não é o corpo que se atrasa. É aquele peso que a alma impõe, é a força com que nos empurra de volta ao sono que já não voltará tão cedo, é o desânimo e a inexistência de um motivo feliz para começar um novo dia, que de novo aparentemente pouco tem.
E hoje foi diferente. Hoje, apesar do nervosismo e ansiedade que se impunha, a alma não me quis esconder de novo nos lençóis pesados, não me implorou que o tempo não corresse mais e nos deixasse sós. Hoje sorriu-me, abriu vagarosamente os cortinados para a luz entrar e disse que seria um dia bom. Hoje havia algo novo, hoje estaria algo realmente meu nas horas das tarefas diárias. Hoje seria um pouco mais de mim e menos dos outros. Talvez tenha sido isso.
Fica-me na memória aquele instante, tão díspar de todos os outros, que se repetem há tanto tempo, que me recordou daquilo que realmente procuro e que, confirma-se, me fará tão bem.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quero voltar a ti, quero, minha Pomba. Tem paciência, voltei a precisar de tempo e coragem para recuperar o bom senso. Pertences-me e preciso de te ter bem arrumada em mim, nos meus dias, na minha rotina. Preciso da minha rotina. Aguarda que voltarei, o mais breve que conseguir. Finjo não te sentir a falta, mas sei que te falho e dói. Cabe-me apenas a mim quebrar essa dor. Volto em breve. Hei-de cuidar de ti.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vinte e Três do Dois do Onze

Três senhores, cada um com o seu tom castanho de sobretudo, a subirem juntos as escadas da rua. Sobressai a similaridade da concentração pilosa nula no topo de cada uma das suas cabeças reluzentes. Nada disto, possivelmente, chamaria a atenção, se não fosse o facto de as três carecas estarem viradas em uníssono na mesma direcção. Com os olhos postos nos andares superiores de um dos prédios à sua esquerda, onde não encontro razão para tanta atenção e interessem, os três carecas de sobretudos castanhos a subirem vagarosamente as escadas criam uma imagem tão bizarra e harmoniosa que não passa despercebida.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Doze do Dois do Onze

O Chiado é maravilhoso. Regressou o sol e o calor que permite que o peso do casaco descanse em casa. O sol já caiu, mas a multidão permanece na rua. A imensa e plural multidão. Oiço-a, enrolada nas línguas que tornam o português uma preciosidade rara. Subo as ruas que já me reconhecem, provo novos recantos, reencontro a diversidade das roupas, das idades e dos cabelos, perco-me no meio do destino de cada um. Já anoiteceu, mas a vida é imensa e parece preparar-se para se manter intensa por muitas horas. Há tanto aqui. Quero-me aqui. Cheia.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Trinta e Um do Um do Onze

É difícil de explicar porque me ficam certas pessoas. Não era mais que uma jovem como tantas outras, talvez um pouco mais prolixa e organizada no discurso. Descreveu com exactidão o que sentia assim como a doença de que padecia e que poderia estar, de certa forma, relacionada com as queixas actuais. A cada pergunta do médico, quando tentava compreender melhor a situação, respondia, do seu corpo direito e aprumado e com um aceno discreto, "Correcto." E é apenas isto que consigo identificar que me chamasse a atenção. A postura e o discurso exemplarmente correcto. O que é facto é que, hoje, foi a memória escolhida.

Trinta do Um do Onze

Há demasiado cá dentro. Por muito que se arrume cada peso no seu lugar, por mais que se procure um equilíbrio, há sempre a possibilidade de tudo tombar num pequeno encontrão dos dias. E basta um pequeno incómodo para se perder o controlo. É, talvez, necessário que por vezes isso aconteça. Talvez devolva alguma vida, talvez obrigue a despertar, mesmo que com mágoa e algum desespero, mas é preciso vivê-lo. É preciso enfrentá-lo. E é preciso uma nova oportunidade para conseguir erigir tudo outra vez, com uma estrutura nova, mais sólida, mais confiante.
São dias difíceis.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vinte e Nove do Um do Onze

Entro na sala e sinto o cheiro. É, efectivamente, uma festa de família. A terceira idade reina na divisão, sentada ao longo de todas as paredes, de mãos apoiadas sobre as saias, sorrindo cordialmente aos convidados que não conhece mas aceita. Fala-se das crianças já tão crescidas, do que faz um e outro, do tempo que passou desde a última vez, de promessas de novos encontros. A casa torna-se pouca para tanta gente, que se aperta para passar entre as umbreiras das portas. Vem muita gente celebrar, afinal, não é todos os dias que se celebram oito décadas. Mesmo que a aniversariante insista que são apenas dezoito, com a alegria que a muitos invejaria. E, no fundo, é sempre bom sentir que a família se mantém cá, ao longo de todos estes anos.